Crise na direita se aprofunda e isolamento do ex-presidente expõe racha interno silencioso
Bolsonaro — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo
A prisão de Jair Bolsonaro desencadeou uma ruptura imediata entre o ex-presidente e parte da direita institucional, revelando um esvaziamento que surpreendeu até setores do próprio bolsonarismo. De acordo com fontes do Congresso, parlamentares outrora fiéis recuaram subitamente da defesa pública, optando por um tom cauteloso que indica rearranjos estratégicos. Nos corredores, a avaliação é de que o custo político de defendê-lo neste momento supera qualquer tentativa de fidelidade automática. A queda no apoio ecoa na base e inaugura um ciclo imprevisível para a extrema direita brasileira.
O silêncio instalado entre líderes conservadores expõe fissuras que já vinham sendo maquiadas desde 2022, mas que agora emergem com força. Deputados que integravam o núcleo duro passaram a concentrar agendas em suas bases eleitorais, evitando declarações que os vinculem ao desgaste crescente. A militância, embora ruidosa nas redes, já percebe a falta de coordenação e expressa frustração com a ausência de lideranças que assumam o front. O distanciamento se mostra não apenas estratégico, mas também uma medida de autopreservação política.
A direita atravessa um período de reconfiguração profunda e ainda não encontrou um nome capaz de ocupar o espaço deixado com a prisão de Bolsonaro. Nomes cogitados para assumir protagonismo demonstram prudência e evitam associação direta ao caso, temendo contaminação eleitoral. Consultores políticos afirmam que a fragmentação tende a se aprofundar antes de qualquer reorganização consistente. A ausência de um eixo central dificulta a construção de narrativas unificadas.
O impacto judicial também pesa no cálculo político: decisões recentes do STF indicam um cenário desfavorável para Bolsonaro, alimentando o desconforto de aliados que temem novos desdobramentos. Fontes jurídicas destacam que a possibilidade de delações e de novos documentos comprometedores incentiva o afastamento cauteloso. A estratégia dominante entre parlamentares é aguardar, silenciosamente, o avanço do processo. O risco reputacional, dizem analistas, é grande demais para declarações intempestivas.
Influenciadores e militares aposentados — antes ponta de lança do discurso bolsonarista — também adotaram recuo tático. Lives foram canceladas, discursos moderados e publicações apagadas. A mudança é drástica e aponta para uma tentativa de evitar desgastes derivados. A militância nota o movimento e tenta compensar a ausência de liderança com mobilizações espontâneas, porém desorganizadas. O contraste em relação a crises anteriores é evidente e sintomático.
Nas redes, a base continua ativa, mas perdeu coordenação e intensidade. Grupos antes unificados agora disputam versões internas dos fatos, enfraquecendo a narrativa central. A falta de diretriz clara deixa influencers secundários competindo pela liderança do discurso digital. Especialistas em comunicação apontam que a perda de centralidade transformou seguidores em ilhas desconectadas. O que antes era força agora se transforma em ruído.
Com as eleições de 2026 no horizonte, o desgaste preocupa partidos que dependem do voto conservador. Pesquisas preliminares indicam rejeição crescente, empurrando possíveis pré-candidatos a se distanciar do ex-presidente. A direita tenta medir o impacto real da crise e busca alternativas menos radicais para preservar o eleitorado moderado. A incerteza sobre o futuro eleitoral torna a crise ainda mais complexa.
Analistas avaliam que o apoio “se desfaz como espuma” porque nunca foi, de fato, homogêneo — era sustentado por conveniências, não por lealdade ideológica sólida. A prisão apenas acelerou um processo já em curso, deixando Bolsonaro isolado como nunca. O campo conservador, agora sem bússola, tenta se reinventar em meio ao próprio caos político. O Brasil acompanha o desmonte de uma estrutura que parecia inabalável, mas que ruía por dentro.
Fontes: Ipec, Quaest, Núcleo Jornalismo, Estudos de Mídia, G1, Monitor Político, STF, Estadão, BBC, Veja, UOL, Congresso em Foco, Folha, Valor, O Globo
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